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tonyralmeida

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Um bom manual sobre a crise do Euro mas um mau romance

A Mão do Diabo - José Rodrigues dos Santos

De entre todos os livros que já li do José Rodrigues dos Santos, e em particular os que dizem respeito à "série" Tomás Noronha, este é, sem dúvida, um dos piores que já me passaram pelas mãos.

 

Tal como nos livros anteriores, "A Mão do Diabo" é construído sobre um extenso trabalho de pesquisa, desta vez relacionado com a moeda transeuropea e com a crise que a tem abalado desde 2008 após o rebentamento da bolha especulativa nos EUA, e que viria pôr a nu as fragilidades do Euro. É aqui que o livro se torna de facto interessante: quem quiser ter uma ideia mais clara sobre qual o caminho que nos trouxe até aqui, ao ponto de Portugal ter que solicitar ajuda à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu e ao Fundo Monetário Internacional - conjunto a que se convencionou chamar de "troika" - tem neste livro um bom resumo. Está lá tudo: os pressupostos políticos que nos conduziram à criação do Euro, a liberalização dos mercados, o que é o subprime, o porquê deste produto financeiro ter abalado a economia europeia, as crises da Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda (não Itália não foi contemplada neste romance), a relutância alemã,... enfim, tudo. Quase que este livro se poderia ter chamado "Tudo o que queira saber sobre a crise do Euro e ainda ninguém lhe contou." Obviamente que podemos questionar a objectividade e imparcialidade do que aqui é explicado, mas penso que, em momento algum, este assunto poderá ser analisado sem que este tipo de pensamentos ocorra. Em todo o caso, este livro é uma espécie de "Seleções do Reader's Digest" sobre a crise da moeda única que acaba por ter algum interesse objectivo.

 

"Espera aí! Mas isto é um romance ou um livro de economia?!" Já lá vamos... É de facto um romance que decorre de forma muuuuuuuuito lenta: são necessárias quase 200-duzentas-200 páginas para que o enredo comece a ganhar velocidade. Bem, a palavra velocidade é talvez um pouco excessiva. Andamento, vá.

 

Até aqui, o primeiro terço do livro não passa de um extenso prólogo. Olhando para o livro no todo, este não passa de uma daquelas laranjas de final de estação: secas, sem quase nenhum sumo. Junte-se a isto toda uma panóplia de diálogos tão forçados que chega a irritar, e só não larguei o livro porque o conteúdo informativo acabou por prender-me, porque se fosse pela história...

 

O final do livro é igualmente sofrível. Vemos toda uma série de conjecturas do autor, e que de certa forma também temos formadas, a serem desfiadas no meio de mais diálogos ocos e demasiado artificiais. Vemos personagens que alegadamente ocupam lugares importantes ou que julgamos detentoras de formação extremamente rica a serem ultrapassados por um professor de História especialista em Línguas Antigas. Nada contra os professores de História, mas a forma como todo ocorre é demasiado irreal e factícia que se torna quase incómodo de ler. Já li ficção científica mas credível do que esta última história do Tomás Noronha.

 

Em resumo, encontramos o costume: um crime, a personagem a ser chamada para o centro da história, uma "bond girl" e um final (quase) feliz, tudo embrulhado com informações q.b.

 

Literatura para as tardes de praia em jeito de pastilha elástica.